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O custo invisível de estar sempre disponível

O custo invisível de estar sempre disponível

Por trás da cultura do “eu dou conta” existe uma lógica silenciosa de que o bom profissional é aquele que está sempre disponível e encontra uma forma de entregar, mesmo quando já ultrapassou os próprios limites. Quando esse comportamento passa a ser admirado e recompensado, o excesso deixa de parecer um risco e começa a ser tratado como comprometimento.

Uma empresa pode oferecer terapia, aplicativos de meditação e palestras sobre saúde mental. Mas essas iniciativas perdem força quando a rotina estimula jornadas intermináveis, mensagens fora do horário, urgências permanentes e a sensação de que descansar é sinal de pouca dedicação. Uma cultura saudável se revela na forma como o trabalho é organizado e nos comportamentos que a empresa incentiva todos os dias.

Quando essa dinâmica se torna permanente, o profissional passa a trabalhar no modo de sobrevivência: responde ao que chega, resolve o mais urgente e deixa pouco espaço para pensar, criar e planejar.

Quando a exceção vira regra

O cansaço passa a ser encarado como algo normal, dormir mal vira parte da rotina, a irritabilidade é atribuída ao excesso de trabalho e a dificuldade de concentração é interpretada como falta de organização.

É responsabilidade das organizações rever processos, prioridades e modelos de gestão: avaliar se todas as reuniões são necessárias, estabelecer expectativas claras, respeitar períodos de descanso, evitar a cultura da urgência permanente e oferecer autonomia para que as equipes possam organizar suas atividades.

Um líder que envia mensagens durante a madrugada, elogia quem trabalha até tarde ou transforma toda demanda em emergência ensina, mesmo sem dizer explicitamente, que esses comportamentos são esperados. Em contrapartida, quando respeita horários, reconhece limites e estimula conversas honestas, cria referências mais saudáveis para a equipe.

Alta performance sem comprometer a saúde

Como psicóloga e executiva de Recursos Humanos com mais de 20 anos de carreira, acredito que uma cultura de bem-estar é construída diariamente, nas relações, nas decisões e na forma como a empresa entende o que significa alcançar resultados. Alta performance sustentável é aquela que permite que profissionais entreguem seu melhor sem precisar comprometer a própria saúde para isso.

Uma organização precisa reconhecer essas situações, criar condições para que sejam administradas e não transformar o sofrimento em requisito para o sucesso. Cuidar das pessoas significa compreender que resultados consistentes dependem de pessoas que tenham condições reais de sustentá-los ao longo do tempo.

Kelly Vara
Kelly Vara

Kelly Vara é psicóloga (CRP 06/86065) e mentora estratégica especializada em saúde mental no trabalho. Após vivenciar dois episódios de burnout, passou a atuar ajudando profissionais, líderes e empresas a alcançarem resultados sustentáveis sem comprometer a saúde mental.

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