Sound Healing: quando o som se transforma em experiência de presença
Entre taças tibetanas, tambores, flautas, gongos e sons da natureza, a terapia sonora ganha espaço no universo do bem-estar. Mas o que, de fato, acontece quando o som deixa de ser apenas algo que ouvimos e passa a ser também uma experiência que sentimos no corpo?

Vivemos cercados por sons. O trânsito, as notificações do celular, as conversas, as telas, os ruídos da cidade. Ao mesmo tempo em que somos constantemente estimulados, cresce o interesse por experiências que fazem justamente o movimento contrário: diminuir o excesso, desacelerar e criar espaço para escutar.
É nesse território que o Sound Healing, ou terapia sonora, vem ganhando espaço.
A prática utiliza sons, vibrações, instrumentos e diferentes paisagens sonoras com a intenção de favorecer relaxamento, presença, percepção corporal e bem-estar. Taças tibetanas, gongos, tambores, flautas, instrumentos de cordas, carrilhões e tambores oceânicos estão entre os recursos utilizados por diferentes profissionais.
Mas não existe uma receita única. E talvez essa seja uma das características mais interessantes do Sound Healing: o mesmo som pode produzir experiências diferentes em pessoas diferentes.
Para Miguel Zafutto, terapeuta do som, a escolha dos instrumentos parte justamente dessa percepção individual. Em seus atendimentos, ele realiza uma anamnese para compreender o momento vivido pela pessoa, inclusive aspectos emocionais, antes de definir como conduzir a experiência.
“Cada frequência pode ajudar de acordo com a necessidade individual”, explica.
Som, corpo e ressonância
Uma das bases da abordagem de Miguel é a ideia de que o som pode ser experimentado não apenas pelos ouvidos, mas também pelo corpo.
Quando um instrumento é tocado, produz vibrações que se propagam pelo ambiente. Para ele, essa experiência pode ser compreendida como uma espécie de “massagem sonora”, em que as frequências produzidas pelos instrumentos são percebidas corporalmente.
É uma percepção que encontra eco em uma característica fundamental do som: ele é uma onda mecânica e precisa de um meio para se propagar. Nosso corpo também responde fisicamente às vibrações sonoras, embora a forma e a intensidade dessa resposta dependam de diversos fatores.
Para Miguel, porém, a experiência não termina na dimensão física. Ele organiza seu entendimento da terapia sonora a partir de três elementos: ressonância, intenção e consciência.
A intenção, segundo ele, é parte fundamental do processo. O terapeuta conduz a experiência a partir de uma determinada intenção, enquanto o instrumento funciona como seu veículo. A própria pessoa que recebe a experiência também participa desse processo.
O terceiro elemento é a consciência. Quando o corpo relaxa e diminui o estado de alerta, Miguel acredita que a pessoa pode acessar estados mais sutis de percepção, aproximando-se de uma experiência de conexão consigo mesma e com seu propósito de vida. É nesse ponto que ele situa aquilo que chama de “cura essencial”.
Yuri CarolH, terapeuta de Sound Healing e professora da Soundfulness, prefere utilizar uma linguagem mais cuidadosa ao falar em cura.
“Considero delicado afirmar simplesmente que ‘o som cura’”, afirma.
Para ela, o som pode ser uma ferramenta que favorece um caminho de autorregulação, presença e percepção do próprio corpo. A cura, ressalta, é um processo mais amplo, que pode envolver mudanças de hábitos, acompanhamento adequado, tempo e participação ativa da própria pessoa.
É justamente nessa diferença de abordagem que o Sound Healing encontra uma questão importante: a experiência subjetiva pode ser profunda, mas não deve ser confundida automaticamente com evidência científica de cura.
Por que determinados sons relaxam?
Uma possível explicação está na maneira como o cérebro e o organismo respondem aos estímulos sonoros.
Segundo Yuri CarolH, a reverberação e a riqueza sonora de determinados instrumentos podem contribuir para reduzir o estado de alerta e favorecer uma sensação de relaxamento e presença. Quando o ambiente é percebido como seguro, o organismo pode diminuir respostas associadas ao estresse e favorecer a atuação do sistema nervoso parassimpático, ligado aos processos de descanso e recuperação. O nervo vago também participa dessa comunicação entre cérebro e diferentes órgãos.
Isso ajuda a compreender por que uma sessão pode começar com uma pessoa acelerada e terminar em um estado de maior quietude.
Na experiência de Yuri, sons sustentados, ritmos constantes e paisagens sonoras menos imprevisíveis podem favorecer essa transição. Não se trata, porém, de encontrar uma frequência mágica para cada problema.
“Mais do que uma frequência específica ou um único instrumento, considero importante a forma como construímos a experiência sonora”, explica.
Aterramento, movimento e diferentes paisagens sonoras
Na abordagem de Miguel Zafutto, os sons mais graves são associados ao aterramento. A ideia é trazer a pessoa para o corpo, desacelerar e favorecer uma sensação de estabilidade.
A taça tibetana é um dos instrumentos que ele utiliza nesse contexto. Seu som profundo e sustentado pode, segundo sua experiência, ajudar pessoas que chegam muito aceleradas ou ansiosas a encontrar um estado de maior presença.
Mas a estratégia pode mudar quando o estado da pessoa é outro.
Se alguém chega muito lento, triste ou sem energia, Miguel busca instrumentos que estimulem movimento, como o tambor. Já para pessoas excessivamente conectadas ao aspecto físico e à materialidade, utiliza instrumentos mais leves, como flautas e carrilhões, associados, dentro de sua visão, a uma dimensão mais sutil da experiência.
A lógica é semelhante à apresentada por Yuri: não existe uma paisagem sonora adequada para todas as pessoas.
Ela explica que, além das frequências, é possível observar características como timbre, ritmo, intensidade, vibração, harmônicos, sustentação e reverberação. A partir dessas características, o profissional constrói diferentes paisagens sonoras de acordo com a intenção da experiência e com o estado da pessoa.
Ruído branco, rosa e marrom: afinal, qual a diferença?
O chamado ruído branco também aparece nesse universo.
Miguel utiliza o conceito relacionando-o a sons amplos, como o barulho do mar, e cita o tambor oceânico como instrumento capaz de criar uma textura sonora contínua.
Yuri explica que ruído branco, rosa e marrom são diferentes tipos de ruído, definidos principalmente pela maneira como sua energia se distribui entre as frequências.
O branco possui um espectro amplo e uniforme e costuma ser percebido como um chiado contínuo. O rosa concentra proporcionalmente mais energia nas frequências baixas, enquanto o marrom apresenta predominância ainda maior dos graves, sendo percebido como mais profundo e encorpado.
Mas ela faz uma ressalva importante: não acredita que exista uma regra segundo a qual determinado ruído seja indicado para ansiedade e outro para concentração.
“A resposta ao som é muito individual”, afirma.
O som pode ajudar a dormir?
O sono é uma das áreas em que muitas pessoas recorrem a sons ambientes, músicas ou ruídos contínuos.
Miguel, no entanto, não recomenda manter um som durante toda a noite. Para ele, o mais interessante é utilizar o som como uma preparação para o descanso: músicas lentas e leves, intercaladas com momentos de silêncio e, posteriormente, toques espaçados de uma taça tibetana. A ideia é favorecer uma desaceleração gradual do corpo.
Yuri também entende o som como parte de uma rotina de higiene do sono. Para ela, o mais importante não é necessariamente deixar um áudio tocando durante horas, mas criar um momento de escuta consciente antes de dormir.
Reduzir as luzes, diminuir o uso de telas, manter horários regulares e criar momentos de silêncio também fazem parte de uma rotina que pode contribuir para o descanso. O som, nesse contexto, é apenas uma das ferramentas possíveis.
E se o som não for o protagonista, mas o caminho para o silêncio?
Essa talvez seja uma das ideias mais interessantes trazidas por Yuri.
Para ela, o objetivo do Sound Healing não é criar dependência de sons para dormir ou relaxar. Ao contrário: o som pode funcionar como uma porta de entrada para estados de maior quietude.
Ela própria conta que tinha dificuldade para meditar e que o Sound Healing a ajudou a chegar ao silêncio e à presença. Hoje, utiliza a meditação diariamente.
Ao direcionar a atenção para a vibração, a reverberação, as camadas sonoras e os espaços entre os sons, a pessoa encontra um ponto de atenção diferente daquele proporcionado pelos pensamentos cotidianos.
“Primeiro o som me ajudou a encontrar o silêncio; depois, aprendi a permanecer nele.”
A frase sintetiza uma inversão interessante: em vez de usar o som para preencher o silêncio, podemos utilizá-lo para aprender a percebê-lo.
Uma prática ancestral que ganha novos significados
A relação entre seres humanos e som é muito anterior ao Sound Healing como conhecemos hoje.
Tambores, cantos, mantras, gongos, sinos, chocalhos e instrumentos de sopro aparecem em diferentes culturas e tradições há milhares de anos, em contextos que incluem rituais, celebrações, práticas espirituais e experiências coletivas.
Miguelito relaciona a terapia sonora contemporânea a saberes de povos originários, indígenas e tradições xamânicas, nas quais o som aparece associado a práticas de cura e espiritualidade.
Yuri também chama atenção para essa dimensão ancestral, mas ressalta a importância de respeitar a origem e a história de cada tradição, evitando atribuir aos instrumentos propriedades ou usos históricos que não possam ser comprovados.
O que muda hoje é o encontro desses saberes com novas formas de investigação sobre som, cérebro, corpo e emoções.
O que a ciência já sabe?
A pesquisa científica sobre música, som, relaxamento e intervenções sonoras vem crescendo. Estudos investigam possíveis efeitos sobre estresse, ansiedade, humor, dor, sono e parâmetros fisiológicos.
No caso específico do Sound Healing e de instrumentos como as taças tibetanas, porém, a literatura ainda é menor e apresenta limitações metodológicas.
Isso significa que existem resultados promissores, mas ainda não é possível afirmar que uma determinada frequência ou instrumento tenha capacidade comprovada de tratar ou curar uma doença específica.
Yuri considera justamente esse um dos grandes desafios da área: uma experiência sonora envolve muitas variáveis — instrumento, timbre, ritmo, intensidade, ambiente, condução, contexto e, principalmente, a individualidade de quem recebe a experiência.
É também por isso que ela defende um diálogo entre conhecimento ancestral, experiência individual e investigação científica.
Quando a experiência continua depois que o som acaba
Os dois profissionais relatam perceber efeitos que podem permanecer após o encerramento de uma sessão.
Miguelito descreve a experiência como sutil, mas acredita que a prática recorrente, como uma sessão semanal, pode produzir transformações graduais na rotina.
Yuri também recebe relatos de pessoas que percebem tranquilidade, melhora do sono e sensação de bem-estar depois das sessões. Ela relaciona essa possibilidade ao conceito de neuroplasticidade: experiências repetidas podem participar de processos de aprendizagem e adaptação do cérebro.
Mas, novamente, a palavra-chave é processo.
Uma sessão isolada não significa uma transformação permanente. Na visão de Yuri, experiências de relaxamento e presença podem ganhar mais significado quando acompanhadas de outras mudanças no cotidiano, como redução de estímulos, meditação, atividade física, alimentação equilibrada e uma rotina adequada de sono.
Para quem nunca experimentou
Para quem nunca participou de uma sessão, Miguelito considera importante buscar orientação profissional. No atendimento individual, a anamnese permite compreender melhor o momento da pessoa e construir uma experiência personalizada.
Yuri recomenda, para quem está começando, participar de uma experiência conduzida por um profissional capacitado.
Também é possível começar de forma simples: reservar alguns minutos para uma escuta consciente, diminuir outros estímulos, fechar os olhos e perceber o som, a respiração, o corpo e os momentos de silêncio.
Não é necessário encontrar a “frequência perfeita”.
Talvez o primeiro passo seja simplesmente parar para ouvir.
Um mercado em expansão
A procura pelo Sound Healing também acompanha um movimento maior do mercado de bem-estar.
Yuri relata que a Soundfulness atua há cerca de oito anos na formação de profissionais e que atualmente observa uma procura crescente tanto por experiências de Sound Healing quanto por pessoas interessadas em aprender a trabalhar com o som. Segundo ela, as práticas vêm chegando a retiros, hotéis, empresas, eventos e atendimentos individuais.
Mais do que uma tendência isolada, o crescimento da terapia sonora dialoga com uma busca contemporânea por ferramentas de desaceleração em uma rotina marcada pelo excesso de estímulos.
E talvez seja justamente aí que esteja sua força.
Em um mundo em que somos constantemente convidados a produzir, responder, consumir e permanecer conectados, reservar alguns minutos para escutar pode ser, por si só, uma experiência de cuidado.
O som começa.
O corpo responde.
E, quando ele termina, talvez reste aquilo que os dois profissionais descrevem de maneiras diferentes: uma percepção mais clara de si mesmo.
Porque, no fim, talvez a experiência não seja apenas sobre o que ouvimos.
Mas sobre o que conseguimos escutar quando finalmente diminuímos o ruído ao redor.
Importante
O Sound Healing pode ser utilizado como uma prática complementar de relaxamento, bem-estar e autocuidado, mas não substitui tratamento médico, psicológico ou qualquer acompanhamento profissional de saúde. Pessoas com condições específicas, maior sensibilidade sonora ou dúvidas sobre a prática devem buscar orientação adequada antes de realizar a prática.

Fundadora e Diretora Editorial do Portal Alma Aline Pimentel é jornalista, comunicadora, artista e empreendedora, com mais de 15 anos de trajetória nas áreas de comunicação, relações públicas e produção de eventos. Formada em Jornalismo pela PUC-Campinas, também possui formação em dança e teatro e pós-graduação em Dançaterapia. Sua trajetória profissional transita entre comunicação, cultura, arte, bem-estar e desenvolvimento humano, construindo projetos e conexões entre diferentes universos e públicos.


